Meu Diário
13/10/2011 20h30
A escolha

 

Sempre corri.
Corria p'ra casa. P'ro trabalho. Corria p'ra escola. Corria p'ra namorar. Corria p'ra ser feliz.
Fazia tudo correndo. Andava correndo, comia correndo, estudava correndo, fazia compras correndo, falava com amigos correndo.
E quando não havia um lugar p'ra correr, ou algo p'ra fazer correndo, ficava perdida. Se estava parada, sem mais nem menos vinha aquela insegurança de que havia deixado algo para trás sem fazer, ou que fizera algo errado, provocando um lapso de tempo entre uma corrida e outra.
Sem perceber, parei de correr. Reduzi o passo.
Ai sim, percebi, o tempo que perdera, correndo para fazer coisas, ver coisas, conseguir coisas. Corria tanto que ficava sem fôlego para analisar se tinha um bom motivo para correr.
Hoje, antes de sair a passos largos, penso se preciso chegar antes, primeiro, ou se o quinto lugar pode ser mais interessante. Paro e me deixo ser escolhida. Percebi que há um prazer imenso em ser a escolha, e não em escolher. Quando escolhemos, podemos pegar algo que não nos quer, porém quando se é escolhido, com certeza somos a opção suprema do agente escolhedor, que ficará imensamente feliz com nosso aceite.

 


Publicado por Fátima Batista em 13/10/2011 às 20h30
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28/05/2011 22h38
Re-encontro

Hoje falei com uma pessoa que não vejo há cinco anos. Cinco anos! Muito tempo. Mas falar com esta pessoa, ouvir sua voz, foi perceber que o tempo não passou, pelo menos no que diz respeito a sentimentos, emoções. Fiquei o resto do dia a sorrir. Sorrir com os olhos. Sorrir com a alma.

 

Sem mais nem menos cinco anos eram nada. Peguei-me sorrindo às gargalhadas ao telefone. De novo ouvi minha voz. Sim, porque quando falamos o comum, não ouvimos nossa própria voz. Tudo é automático. Desta vez não. Ouvi minha voz, alegre, feliz. Eu me ouvi!!! Então percebi que há cinco anos não sorria, não sorria de verdade, com o coração, com a alma. 

 

Este telefonema me fez um bem enorme.


Publicado por Fátima Batista em 28/05/2011 às 22h38
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03/08/2010 18h40
Noitinha
Estou aqui, pensando. Olho pela janela de vidro de minha sala e vejo a fábrica a se descortinar à minha frente. Vejo o movimento dos operários. Vejo as pequenas plantas no batente da janela. Vejo o motorista que pega a vassoura e varre o chão da fábrica.
Você deve estar pensando – enquanto todos trabalham, ela está em lazer escrevendo? Negativo! Estou pensando. Sou paga pra pensar. E isto eu sei fazer. Faço bem! Entre outras coisas, mas pensar talvez seja o que faço de melhor.
O Plástico bolha é cortado longitudinalmente p`ra encobrir a máquina que está de partida. A chinesa me chama no skype – quer saber se já pode embarcar as peças.
 
Comecei a escrever este texto há dois meses. Tantas coisas aconteceram neste curto espaço de tempo. Agora são 18:35 e pelo vidro da janela não consigo ver a fábrica. Está às escuras. Todos já foram para casa e aqui continuo, “escrava que sou do trabalho” – escrevi isto há 5 (cinco) anos. E continuo escrava. Meus pensamentos agora são outros. O amor permanece o mesmo. Imutável. Pela mesma pessoal, mas com suavidade. Já não dói. Mas lá está. E lá ficará como eu sempre soube. Lá ficará para sempre. Quem sabe um dia os caminhos sejam retomados. Não sei mais nada. Não há dor, não há tristeza, simplesmente a certeza que para mim, amor não poderia ser por tabela, tinha que ser por inteiro.
 
Mas voltando à minha janela escura. Lá estão os vidros, agora espelhados pelo escuro da fábrica. Só me restam 30 dias. E depois não verei mais estes vidros, estas pessoas. Irei para outro lugar, outra paisagem, outra forma de pensar.
 
Tudo na vida é um eterno renovar.

Publicado por Fátima Batista em 03/08/2010 às 18h40
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31/07/2010 09h56
Enganos
Escrevi o texto abaixo em janeiro de 2007. Naquela época, achava que tudo se resolveria rapidamente. Sabia que seria um processo por demais dolorido - só não sabia o quanto -, mas pensava que tudo se resolveria.

Ledo engano. É lógico que tudo se resolve, porém, o tempo, cruel, as vezes se arrasta.

"

Reflexos
 
Todo ato tem seu reflexo. Se você chutar uma pedra, e ela não for muito pesada, irá rolar. Mas se ela for pesada, você pode até quebrar o pé. Isto é um reflexo.
 
2006 foi um ano de chutar pedras. Este ano pode ser ou não o ano dos reflexos – dos pés quebrados. Hoje ocorreu o primeiro pé quebrado – a primeira perda.
 
Se em 2006 houve muitos danos, em 2007 virão as perdas. Tudo isto é reflexo do que foi 2006. 2007 será um ano de consertos. Um ano de gesso. Engessar todos os pés quebrados oriundos das pedras chutadas em 2006.
 
Crê-se que em 2007 não haja perdas. Somente consertos.  Os consertos, por vezes, podem ser doloridos. Mas há o conhecimento prévio de que se uma coisa está sendo consertada, em dado momento parará de doer.
 
Ótimo! Então, é só ter paciência, esperar cada pé quebrado que acontecer como reflexo dos chutes em 2006, colocar o gesso, sentar e esperar a dor ir embora.
 
Esperar que não haja nenhuma fratura exposta – ah, ai já é demais. Depois de todos os chutes, e de toda intensidade de cada chute, não haver fratura exposta, será milagre. Bom, é sentar e esperar.
 
Já basta a certeza de que não haverão pedras pra serem chutadas – isto já é um começo. E preparar tudo para que quando chegar à fratura exposta, a perda não seja tão grande.
 
Mas hoje foi um dia de perda – a primeira delas. Reflexo de 2006. Na verdade não somente de 2006, mas de 2005 também. Doeu! Doeu profundamente. Mas o gesso está colocado no pé, a muleta está na mão, e o negócio é caminhar mancando, mas caminhar, olhando sempre na luz lá no fim do túnel.
 
O engraçado é que você só percebe que dói quando quebra – nunca na hora do chute. Você pode saber que os reflexos virão, e estar preparado para eles, mas o primeiro será sempre mais difícil. É o impacto. Tenho certeza que os outros virão, na velocidade da luz, mas talvez sejam recebidos com menos intensidade, porque o primeiro já terá passado.
 
Perdas e danos. Primeiro, vêm os danos, depois as perdas. E depois das perdas, virá o caminho e, então tudo ficará certo novamente. Esperemos então, com os pés bem fincados no chão, estoicamente, as perdas que virão em 2007, reflexos dos danos de 2005 e 2006.
 

Publicado por Fátima Batista em 31/07/2010 às 09h56
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17/01/2009 09h13
Vida

Fico sempre muito tempo sem escrever no meu diário.


Não por falta do que dizer, mas por falta de tempo.


Estou debaixo da linha somente esperando o tiro de partida. E esta demora, esta expectativa me deixa ansiosa.


 


Sempre soube como seria o amanhã. Hoje não sei mais. Estou meio acéfala. E meio sem pés, sem mãos. Sem pensamentos.


 


Estou esperando pra saber o que a vida reservou para mim. Preferia viver outra história – neste momento, sim – preferia viver outra história, mas eu mesma escrevi minha história, e no meio desta história tem muitas coisas que precisam ser apagadas. Não somente apagadas, mas completamente esquecidas como se nunca tivessem sido vividas.


 


Estou tentando reescrevê-la.


Publicado por Fátima Batista em 17/01/2009 às 09h13
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