Não me conte!
Há muito ela procurava alguém. Sexagenária, mas ainda com fogo embaixo das saias, não tendo dado muito certo no primeiro casamento, queria alguém. Que fosse mais novo, que tivesse menos dinheiro, não importava. Queria alguém para lhe esquentar os travesseiros e lhe dar umas chineladas uma noite ou outra.
Já fazia um tempo em que andava de olho num certo moçoilo. Sem muito a oferecer, meio arisco, taciturno, mas atraente a seus olhos.
Sorriu, fez-se sexy, melosa. Sabia que ele gostava de mulher melosa. Fez-se submissa, boa cozinheira, boa companheira, inteligente, bondosa. Só não se mostrou velhaca. Ah, isso não podia.
E não é que com conversa mole o moçoilo lhe caiu nas redes? Ficou feliz da vida. Emancebou-se. Contou para todas as amigas, com ar jovial. Querendo parecer mais nova, mais lisa, mais gostosa. O moçoilo se tornou seu cartão de visitas, sua mostra de poder sobre as mais jovens. Enrodilhou-se no moço. Convenceu-o de que era uma boa coisa estarem juntos. Ou melhor, juntarem as carcaças. E olhe que ele não era tão carcaça assim, mas ela o fez parecer tal para esconder sua própria curvatura da espinha.
Ele não se fez de rogado. Beijou-lhe os pés. Fez lhe rainha. Disse com todas as letras que era a mulher de sua vida. Ela, então, deu-lhe tudo. Casa, comida e roupa lavada. Era tudo o que queria – sossego. Mas, de vez em quando, o moço não se contém e olha pela janela aberta, a ver outras moçoilas a passar. Não perdeu os vícios dos velhos tempos. Em seus olhos, por baixo das pálpebras, ainda brilha a luz de antigas paixões.
Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 25/05/2007
Alterado em 24/04/2026