Textos

Paixão e Instabilidade


A instabilidade é muito comum naquelas associações baseadas em interesses. Ela, por interesse em não terminar seus dias de caquética velhice sozinha. Ele, para ter quem lhe lave as meias, faça bolinhos de chuva, passe as camisas, e lhe faça um cafuné de vez em quando, mesmo que este cafuné não seja o melhor que já recebeu.

Então, não deveria haver instabilidade, se há interesse de ambas as partes!
Mas, é ai que reside a instabilidade. Ela, sabedora da paixão que lhe vai na alma, vive o eterno pesadelo que tais paixões falem mais alto. Sabemos que um gato preso, fica cada vez mais arisco, e no primeiro descuido, cai fora do cativeiro e vai buscar alimento mais substancioso em outros prados.

Ele, porque se torna descuidado. Sabedor que os anos avançados da companheira a tornam submissa, cativa, relaxa no comportamento. Aos poucos vai demonstrando seu verdadeiro eu. Fica atento aos ditos de antigas paixões. Preocupado em demasia com o que dizem nas esquinas. Saudoso de velhas orgias, já não dá tanta importância à pobre e rechonchuda concubina.

Então, sentam-se ao sofá, a ver televisão. Ela, pelo canto dos olhos, vê o olhar perdido do companheiro. Pergunta o que há. Nada, diz ele. Estou vendo este programa. Mas ela, no fundo de sua alma, sabe que o pensamento voa, que os desejos não morrem tão facilmente, que a paixão mina qualquer resistência, e que tesão não acaba de um dia para o outro.

E assim, seguem a vida. Ambos sabendo que, mais cedo ou mais tarde, tudo se acabará e nada restará pra contar história. É a instabilidade própria de algumas associações.
Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 16/06/2007
Alterado em 24/04/2026
Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários