Textos

O copo



Há muito percebera que toda noite ela levava um copo com água para a mesinha de cabeceira. Mas o que mais intrigava é que toda manhã o copo com água retornava para a cozinha. Ela não bebia água durante a noite. E mais estranho é que a água voltava sempre com uma coloração opaca.

Naquela madrugada de finalzinho de outono, meio friozinho, sonhara com longas melenas a se espalharem por seu peito. Acordou ereto. As longas melenas fizeram um belo serviço nele. A ereção não era meio termo. Era termo inteiro. O sonho o fizera retornar no tempo. Lembrar de velhas farras. Estava totalmente aceso e precisava de sexo urgente. Estendeu o braço e apalpou as dobras do corpo gorducho da esposa. Sentiu-lhe o cabelo escorrido. Definitivamente não eram os mesmos do sonho, mas serviam.

Puxou-lhe o corpo ansioso. Ela acordou assustada com ele a lhe assaltar as ancas. Huuuummmm... huuuummmm.... huuummmm... solta longos gemidos e lhe toma o corpo. Ao tentar abraçá-la, percebe a contragosto que ela estende a mão para a mesa de cabeceira. Puxa-lhe o braço. Tem pressa. Mas a mãozinha já nervosa escapa e vai novamente para a cabeceira. Toma-lhe a mão de novo e a traz para o ventre. E de novo a mãozinha volta para a cabeceira. Segura-lhe a mão com força e a beija com sofreguidão. Sem nada entender, sente nos lábios algo mole, murcho. Não sente o costumeiro contato com os dentes. Assustado acende a luz, e estarrecido entende porquê ela trazia todas as noites um copo com água para o quarto. Na mesinha de cabeceira, sobre a tolha de linho branco, está o copo com água e, dentro, acusatória, sorridente, está uma dentadura meio gasta, envelhecida, tal qual a esposa encolhida num canto da cama.

Sem acreditar, puxa-lhe o rosto. E lá está a prova – banguela. Ela usava dentadura e ele não sabia! Era seu segredo mais sagrado. Há muito lhe caíram os dentes. Há muito usava aquela dentadura que por já estar gasta lhe causava aftas, por isso o copo de água na hora de dormir. Para guardar a dentadura!

Volta para seu lado da cama. Não havia mais ereção. Em seu lugar repousava encolhido o pobre guerreiro. Fecha os olhos e volta a lembrar de antigas melenas. Não mais palpáveis. Agora inatingíveis. Sem ereção só lhe resta dormir, mesmo que seja pelos próximos dez anos.
Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 20/06/2007
Alterado em 24/04/2026
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