A velha e o poste
Desci a rua correndo atrás de Michele. Ela apronta destas coisas de vez em quando.
Abro o portão, vou tirar o carro, e lá vai a danada da cachorrinha rua abaixo. É uma ladeira considerável, e como sempre uso saltos altos, correr atrás da veloz cocker, ainda por cima chovendo, acaba se tornando brincadeira de criança.
Quando chego em baixo, cruzamento perigoso, encostada em um poste, está uma velha senhora. Penso na coincidência de alguns fatos.
Até mesmo solto um pequeno sorriso. Ironias do destino. Passo pela senhora e ela me pergunta se não tenho vergonha em correr atrás de uma cachorrinha.
Viro-me e penso em responder. Responder que a vida é tão ínfima, e que tantas coisas podem acontecer em tão poucos segundos. Que uma cachorrinha tem sim o direito de correr solta debaixo da chuva, que um grande amor pode nascer e viver eternamente por um simples olhar. Que nem sempre interferências externas podem acabar com um elo tão forte. Que uma senhora de idade não deveria ficar encostada a um poste esperando a morte chegar e que todos sejam condescendentes com ela.
Penso em dizer muitas coisas. Calo-me. É o melhor. Nada a discutir com mentes cansadas, perdidas, que sabem que o jogo só está no começo. Que tudo tem meio e fim. E que o fim é o que compensa tudo.
Pego Michele pela coleira e volto. Demorei muito em uma ligação sem sentido, perdi tempo correndo atrás da chachorra, e agora tenho que correr pois estou atrasada para voltar para o trabalho. Afinal, para quem não sabe, trabalho 20 horas por dia. Vezes sem conta não tenho tempo nem para comer, menos ainda para me ater à vida alheia.
Quando passo pela velha senhora, ela me fala novamente lá de sua dentadura postiça e me diz que devo ser mais cuidadosa com minha cachorrinha. Ok, Senhora, respondo e continuo minha vida.
Afinal, tenho mais que fazer. Afinal, sei que o que é meu é meu - não adiantam correias, chaves, palavras, ou o que quer que seja, pois o que se coloca no coração do homem lá fica, eterno.
Tal qual o amor.
Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 24/10/2007
Alterado em 01/12/2007