A velha e a lâmpada maravilhosa
Há horas acordada, rolava na cama, totalmente alerta.
Levanta-se de um salto, vai até o banheiro, vasculha no armário e encontra a Lâmpada. Aquela lâmpada! Aquela, a qual não ousava instalar acima do espelho. Conhecia os motivos. Instalar aquela lâmpada seria o mesmo que reconhecer para si mesma os sinais do tempo.
Comprara a lâmpada logo após o casamento, tempos antes, para melhor iluminar o espelho e fazer sua maquiagem. Porém, logo que a instalou, arrependeu-se! Ali, nu e cru, viu aquilo que os olhos da alma se recusavam a fazê-lo. Sacou a lâmpada e a escondeu no fundo do armário. Naquela noite, porém, sentia uma necessidade premente de ligar novamente a lâmpada.
Ligou. Ficou ali a se olhar – cada sinal, cada mancha senil, a oleosidade e a macilência da pele. Viu os fios de cabelo a pender na testa encharcada de suor. A sudorese excessiva empapava o cabelo, a camisola que, justa grudava no corpo roliço.
Como um ato de coragem, sacou a camisola diante do espelho amplamente iluminado. Forçou-se a olhar. Lá estava o abdômen, volumoso, a despencar sobre a calcinha. Em meio a esta exuberância de gordura localizada, longas estrias, marcas inconfundíveis dos efeitos sanfona ao longo dos muitos anos de vida.
Experimentou um crescente terror ao examinar a pele do pescoço. Inúmeras dobras armazenando suor. Correu um dedo por entre as dobras, levou ao nariz e sentiu o ranço do suor acumulado na noite. Aquilo nem plástica resolveria. Sentiu no queixo e buço os pelos crescidos. Agora, mais que nunca, tinha que lançar mãos da cera quente, pois estava, definitivamente, barbada.
Abaixo dos olhos, as bolsas cinzentas em meio às rugas. Os cremes noturnos não mais surtiam efeito. O nariz estava cada vez mais comprido e mais rebaixado. Já parecia um ponto de interrogação.
Os braços há muito tempo não eram usados para saudação, pois a papada do Adeus, abaixo do úmero fazia shlap shlap toda vez que o braço era levantado. As pernas, cobertas por vasos azuis, mais pareciam enormes laranjas em casca mostrando a celulite de 3º grau.
Encolheu-se! Apagou a lâmpada e tentou sacá-la da tomada. Impossível! Estava muito quente. Sentou-se no vaso esperando a lâmpada esfriar, afinal, não queria o marido, anos mais jovem, olhando-a sob a influência de tão maligna lâmpada. Ao sentar percebeu que o rega-bofe do início da noite começara a fazer efeito. Precisava soltar gases mas temia que o marido, no quarto ao lado, ouvisse os roncos que por certo viriam. Encolheu-se e ficou esperando a lâmpada esfriar. Dormitou e não percebeu o marido entrando no banheiro. Acordou de súbito com a luz intensa nos olhos. E lá estava, o marido, de pé, mirando-a dos pés a cabeça, e o que era pior: pressionava contra o nariz uma toalha de mão.
Céus! Peidara tão alto que chegara a acordar o marido!
Sorriu meio sem jeito, levantou-se cambaleante, balançando as ancas fartas, e correu para o aconchego da luz difusa do quarto de dormir, rezando para que os gases tivessem sido já totalmente expelidos.
Este não é um conto de terror - trata-se apenas de uma brincadeira mostrando o que é o terror de alguns casamentos.
Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 02/11/2007
Alterado em 01/12/2007