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Estranho Amigo - BVIW
Divergíamos por tudo. Futebol, ideologia, credo, amores, trabalho, saudade. Ah, saudade! Saudade era nosso maior desencontro. Ficávamos tempos sem nos ver, e, ao encontrá-lo novamente sempre lhe dizia de minha saudade, ao que me retrucava saudade ser uma palavra que não existia.
Todavia, dentro de nossas divergências, sempre existiu aquele não sei quê de sentir as mesmas coisas, de em um único olhar, dizer tudo o que o outro via e sabia. Dizíamos que nascemos em momentos diferentes, e que havia uma escada íngreme entre nós. Um em um trem veloz, e o outro em um navio mercante. Os encontros só aconteciam quando o trem passava na ponte sobre o braço de mar, no momento exato em que o navio singrava as águas na saída do porto, passando sob a dita ponte.
Mesmo assim havia a saudade na ausência. Eu, personagem fraco, de alma incoerente, sempre fazia questão de dizê-lo. Ele, o elo mais forte daquela estranha ligação, negava-se a assumir tão prosaico sentimento. Mas sempre voltava, e lá vinham as acaloradas discussões. Nossas conversas aconteciam em mesas de café. Ele, doce e fraco. Eu, forte e amargo. Após o café, acendia o cigarro, assoprava a fumaça fazendo pequenos aros a ganhar a liberdade acima de sua cabeça, olhava me nos olhos, e fazia alguma provocação. E ali ficávamos longas horas a conversar. Pedia-me para lhe falar sobre os últimos livros lidos, o que falavam nos jornais, como estava o movimento nas ruas, com quem meu time jogaria, como fora o sermão do padre na última quaresma. Falava-lhe sobre tudo, e ele, de cima de sua grande sabedoria, criticava quando minha análise pobre, enfraquecia os fatos. Ele, trinta e oito, eu, dezenove.
Um dia, não sei qual motivo, não consegui ir ao Café, e ele, nunca mais voltou. Penso naquela figura controversa, soltando círculos de fumaça, discordando de tudo, com um meio sorriso nos lábios e sinto saudade.
Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 24/09/2025
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